quinta-feira, 6 de março de 2014

Corpos Escritos







RESUMO

Pereira, Elisabete Vargas; Corpos Escritos, palavras gravadas na pele. Trabalho final da disciplina de Poéticas em Artes do 4º semestre do curso de Licenciatura em Artes Visuais – Uergs. Montenegro, 2013.



“ A palavra “tatuagem” deriva da língua polinésia ( tatahou =  desenhar). No Ocidente, foi durante muito tempo uma marca de humilhação (entre os prisioneiros ou deportados), mas reapareceu no final do século XX como um fenômeno de moda entre jovens dos grandes centros urbanos. Adornar, pintar ou perfurar o corpo tem sido uma prática comum em diversas culturas na história, com objetivos diversos, tais como assinalar o território na sociedade, preservar a memória e a tradição, ou  simplesmente o prazer de embelezar o corpo. A prática de tatuagem pode ser vista também como um ato de resistência daqueles que, excluídos por razões políticas, econômicas, sociais ou religiosas, não encontram formas de se expressar” (Charles Feitosa, 2009. P.98).


CORPOS ESCRITOS: palavras gravadas na pele

Resumo: Eu e minha colega Claudia, começamos nosso trabalho , principalmente buscando o significado da “tatuagem”.
Nesses corpos reside a inscrição dos acontecimentos do dia-a-dia e dos processos de identificação de nossos retratados. Por isso, a importância de pensar  a individual a partir da tatuagem que leva a comunicação e a identificação tanto individual quanto coletiva. Se a construção da identidade toma como referência o corpo, como pensar o corpo e o uso que faremos? A transformação dos corpos pela inscrição funciona como registro da memória e produção de identidade. Assim como ocorre com a tatuagem, os sinais da aparência viram marcas de identidade, levando a identidade ter  mil possibilidades.
   A presente pesquisa se propõe a apresentar sobre o percurso dos corpos escritos (tatuagens), fazendo uma análise de suas implicações e abordagens através de diferentes áreas do corpo. Tendo o foco no corpo tatuado essa pesquisa vem nos instigar cada vez mais para esse mundo que até então não entendia. O processo de investigação deste estudo se da através de fotografias de corpos tatuados em que pessoas de nossa convivência deixaram se fotografar. Esse início do trabalho de poéticas veio nos dar suporte para dar continuidade nesta pesquisa.
  Nessa pesquisa, de como fazer, como investigar, como buscar dados, em muitas vezes com pessoas que não queriam identificar-se, mas enfim tiramos em média 30 fotos e escolhemos algumas para fazer uma instalação de momentos de corpos escritos. Este painel foi realizado com fotos ampliadas coloridas em tamanho de folha A4, em papel coche, fotos dando uma visão fragmentada e trazendo para o espectador uma junção de palavras levando-as a  serem vistas como frases poéticas. Situamos nossa referência em Rosângela Rennó,  baseados na fotografia de diversas partes de corpos humanos.
Palavras-chave:
corpo, pele, tatuagem, texto,fragmentação, marca.

[...] Rosângela Rennó em seu livro [O arquivo Universal e outros arquivos] ,descreve as séries de fotografias tiradas nas prisões de um estado norte americano de  prisioneiros tatuados.  Eles mostram  partes de seus corpos  gravados com desenhos e escritas quase sempre  com mensagens  de amor, solidão, sofrimento,  em peles brancas, negras, pardas, as marcas deixadas por diversos sonhos, angustias, frustrações e fragilidades “. As palavras escritas em sua obra Cicatriz, nos corpos dos quais a artista se apropria e que são espaço da escritura, são desenhos e palavras.  Outras, distantes de serem palavras apenas lidas, e que se tornam cicatriz. A obra de Rosângela Rennó insiste na palavra, no alongamento da palavra que se faz imagem, e do espaço da escritura que se destina a ser corpo. No caso dos corpos marcados por cicatrizes e tatuagens, se o passado consiste em silencio ou segredo o corpo opera como  arquivo vivo e revela mesmo aquilo que se deseja esquecer [...]




                                                       





  Por não ter o conhecimento que tenho no momento que ainda é pouco sobre tatuagem, via esta arte como uma agressividade banal ao corpo. Com o trabalho de processo de poéticas que fizemos no 4º semestre, chamou-me a atenção de como várias pessoas se tatuavam não somente com desenhos mas muito mais, com escritas mostrando o que sentem e o que estariam transmitindo. A partir deste momento minha concepção mudou, e acabei no final do semestre marcando meu próprio corpo.


   Já passou do tempo em que o corpo era entendido como objeto de desejo, para se tornar objeto de design. Perfura-se o corpo dezenas de vezes por segundo injetando-lhe tinta, e modificando-o. Faz da agulha o pincel, e nasce uma obra de arte.


      “Eu não estou trabalhando com um corpo perfeito estou a lidar outro tipo de verdade: isto é como o corpo. É porque não aceitamos se esta é a nossa realidade?”

John Coplans


Quero ficar no teu corpo
feito tatuagem
que é pra te dar coragem
pra seguir viagem
quando a noite vem...
E também pra me perturbar
em tua escrava
que você pega, esfrega
nega, mas não lava...
Quero brincar no teu corpo
feito bailarina
que logo se alucina
salta e te ilumina
quando a noite vem...
E nos músculos exaustos
do teu braço
repousar frouxa murcha
farta, morta de cansaço...
Quero pensar feito cruz
nas tuas costas
quero te retalhar em postas
mas no fundo gostas
quando a noite vem...
Quero ser a cicatriz
risonha e corrosiva
marcada a frio
ferro e fogo
em carne viva...
Corações de mãe, arpões
sereias e serpentes
que te rabiscam
o corpo todo
    mas não sentes...

Tatuagem
composição: Chico Buarque- Ruy Guerra






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